Nudez
NUDEZ
Nu! Completamente nu!!!
Um jovem corre no meio da rodovia movimentada no sentido contrário ao fluxo dos automóveis. Estes tentam se desviar. Um ônibus vem em sua direção e ele deita-se no asfalto, pronto para enfrentar o coletivo. Certamente seria esmagado, mas o motorista conseguiu frear a tempo.
O jovem vinha de uma festa, um churrasco, com a família da sua namorada. Ele havia, pulando uma cerca, adentrado num canil de cães ferozes, que, por sorte ou providencia não o atacaram. Vencido o canil havia um muro alto que também ultrapassou. Não soube como. No trajeto havia se desvencilhado de tudo que portava: vestes, carteira com todos seus documentos, e um molho de chaves cujo chaveiro tinha um símbolo francês que revelava sua vontade de visitar a França, um dia, particularmente, a Cidade das Luzes.
Tinha uma tia, Betina Aarão, cantora e percursionista, multitalentosa, que na oportunidade era casada com um grande músico e compositor francês, Maxime Le Forestier, que lhe havia feito uma proposta de financiar sua ida para estudar numa famosa escola de música no Estados Unidos da América: o Berklee College of Music.
De fato, o jovem estudava música seriamente porque pretendia ingressar na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas, não tinha recursos para cursar Berklee e o gentil e generoso Maxime ofereceu-se para que fosse para os EUA. O jovem, contudo, recusou a oferta, talvez por orgulho, vergonha, ou simples idiotice.
Todos cometem muitos erros pela vida. Este foi um dos erros que este jovem cometeu.
Erramos muito, muito, muito...
Mas, não podemos prever o que nos aconteceria se trilharmos um caminho ou outro. A consciência dos erros ou dos acertos que ocorrem costumam chegar muito mais tarde em nossas vidas. Ou talvez, nem esta consciência, apenas a reflexão sobre os possíveis trajetos. É preciso analisar nossa história e definir e conhecer nossos desejos mais profundos. No calor imediato dos acontecimentos é como lançar dados, que se não for viciado, não saberemos no que resultaria, nunca.
Alguns arrependimentos, algumas alegrias, algumas tristezas. Para o jovem que corria nu no meio na rodovia muito movimentada, nada disto importava. Ele, inconscientemente buscava a morte ou a salvação.
Não morreu naquele dia. Seguiu seu trajeto na vida. Mas, desejou muitas vezes que tivesse morrido.
O que acontecera com aquele Jovem?
Sempre fora um estudante exemplar. Tranquilo por natureza. Ingressa da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro bem novo. Logo a seguir começou a trabalhar no Núcleo de Computação Eletrônica da mesma universidade.
Desistindo da Engenharia, quase quatro anos depois, ingressou, por outro Vestibular na Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense. Formou-se em Direito em tempo recorde talvez motivado pelo fato de ter abandonado, anteriormente, um dos cursos mais respeitados do Brasil. Ele se formou dois anos antes de sua turma original. Remorso? No abandono da Escola de Engenharia tinha visto seu pai pela primeira vez chorar.
Logo concluído a Graduação em Direito ingressou numa Pós-graduação na própria UFF. Enquanto fazia este curso foi convidado a participar de uma pesquisa na área de Antropologia Social por dois professores do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da própria Universidade Federal Fluminense: Roberto Kant de Lima e Marco Antonio da Silva Mello. E o jovem foi dando mais uma guinada em sua vida: estudar Antropologia, e se dedicou profundamente a isto. Parecia que, afinal, havia encontrado sua “vocação”. Recebeu incentivo da CAPES/CNPq. As coisas iam bem.
Neste ínterim foi solicitado que trabalhasse na implantação do Tribunal Regional Federal da 2ª Região ( TRF 2) que acabara de ser inaugurado a partir da Constituição de 1988. Foi-lhe designado a responsabilidade por três divisões muito importantes na estrutura do TRF 2, e implantá-las: Provimento e Lotação; Legislação e Jurisprudência; e Revisão e Redação.
Tudo novo, o trabalho era difícil e desafiador, mas, o jovem aceitou, depois de alguma resistência porque a Antropologia Social o cativara. Mas, a pessoa que o chamou para trabalhar no TRF 2 era alguém que amava muito: Dr. Romário Rangel.
Parecia que tudo corria bem, ainda, apesar da separação recente dos seus pais e da dor percebida em sua mãe com quem morava sozinho neste tempo. Mas, isto, aparentemente não o afetou decisivamente.
O jovem de formação na Igreja Católica Apostólica Romana desde o berço, contudo, começou a envolver-se com misticismos. Lia livros estranhos que não tinham, e até contrapunham sua formação espiritual. Lia alucinadamente, como era seu feitio quando se interessava por algum tema. Frequentador de sebos trazia volumes e volumes deste material.
O ocorrido quando correu na rodovia, nu, teve uma relação direta com isto. É o que pensa até hoje. O conflito com a sua formação tradicional e as novas ideologias fez com que em determinado momento ele começasse a rezar incessantemente uma oração, que conhecia desde criancinha, como a querer se livrar das novas influências. Por isto se despiu inteiramente, se livrando de tudo.
Na rodovia alguns homens conseguiram capturá-lo e o levaram para um local seguro. Ele continuava a repetir, incessantemente, a rezar a mesma oração. Um apelo aos anjos:
“Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa, me ilumina. Amém!”
Alguma voz vinda de alguém que estava ali disse então: “Nós estamos aqui”. Por incrível, aquilo acalmou o jovem um pouco. Talvez porque tivesse acreditado que, realmente, o Anjo ali estava. Descobriram onde ele estava e o levaram de volta a casa. Continuava repetindo, agora, uma outra oração: a Ave Maria! E tinha alucinações quando um membro da família, disse: “Reza outra oração: o Pai Nosso!”. Também isto, de alguma forma funcionou para acalmá-lo, ou pelo menos tirá-lo do “looping” em que se encontrava. O “looping” é uma palavra inglesa que designa uma acrobacia aérea que consiste em fazer com o avião movimentos circulares em um plano vertical. Assim é usada, em muitos contextos, para referir a um evento que gira em torno de si mesmo, aparentemente, num movimento sem fim. E, na aviação, se este movimento for descendente em direção ao solo se não for interrompido, evidentemente, o avião vai ser destruído. Para evitar um desastre, portanto, é necessário que seja finalizado antes do choque.
Os parentes que foram contatados o levaram para um hospital: o PINEL. Philippe Pinel foi um médico francês, um dos pais da psiquiatria. O nome do hospital é em sua homenagem. O Instituto Philippe Pinel era tão estigmatizador que acabou por gerar um adjetivo muito utilizado no Rio de Janeiro como sinônimo de “louco” ou “extravagante”. Dizia-se, e ainda se diz: “Fulano está Pinel”. Ocorre que era uma instituição amaldiçoada. E ir para o PINEL era realmente algo extremamente vergonhoso, no mínimo.
A médica que o atendeu queria deixá-lo internado, mas, isto não aconteceu. A resistência era grande. Foi, então, levado posteriormente para sua casa com uma prescrição para os remédios. Recusava-se a tomar a medicação prescrita, contudo. Foi uma luta fazê-lo tomar os remédios. Dois amigos médicos estavam com ele, pois morava sozinho com sua mãe e ela não tinha condições de ajudá-lo, nem de controlá-lo. Estes médicos, amigos do jovem e sua família, foram importantes neste momento: Riuitiro Yamane e Magda Yamane, casados. Com muita paciência eles o convenceram a tomar os remédios.
Este foi o primeiro episódio de uma crise aguda. Muitos se seguiram depois.
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