O Difícil Diagnóstico
O difícil diagnóstico
O quadro psicótico continuava. Uma noite chega em casa o pai do jovem transtornado, que já estava separado de sua mãe. Delirando, o jovem imaginou que o pai era um “Mensageiro do Diabo”, um “Cão Feroz”. Refugiou-se, portanto, no quarto da mãe subindo na cama dela. A presença do pai detonara mais uma alucinação.
Acompanhado de alguns enfermeiros bem fortes o levaram para uma clínica no Bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, onde ficou internado quase um mês. Esta foi sua primeira experiência de internação. E não foi nada boa...
Fez amizade, contudo, com uma menina, muito bonita, que também estava interna e era doce e acessível. Isto ajudou-o a passar aqueles dias. A menina fora internada porque fazia “performances” teatrais em lugares pouco convencionais e a família achou por bem “tratá-la”. Difícil de entender. Aquela figura tão doce e tranquila necessitar de internação simplesmente porque investia em seus impulsos artísticos. Ficaram amigos e depois que ambos saíram do período de isolamento encontraram-se diversas vezes. Normalmente iam ao Parque Lage, um museu e escola de artes visuais do Rio de Janeiro para ver exposições, eventos, ou simplesmente passar algum tempo ao acaso. Seu nome era Cínthia. Ela foi muito importante porque foi o primeiro contato social, com uma estranha, que ele teve após o episódio.
Trabalho deu nesta instituição um senhor chamado Zé Maria, que se dizia dono da clínica, e que tinha a mania de entrar nos quartos na madrugada, quando todos estavam dormindo para roubar alguns objetos. Depois, pela manhã, os negociava, e os demais tinham que “comprar” ou dar algum tipo de compensação ao Zé para recuperarem seus objetos. Roubar cigarros era sua preferência porque fumava muito.
Internação é terrível! Quem gosta de ser privado de sua liberdade e ser forçado a ficar num local contra sua vontade?
Encontraram uma psiquiatra com a qual o jovem não tinha a menor empatia. Ao contrário, detestava-a. Os medicamentos que utilizavam pareciam deixá-lo pior do que já estava.
O pai que não sabia que ele decidira parar de fumar cigarros há algum tempo levou alguns maços, porque, evidentemente na clínica não eram vendidos. Resultado: voltou a fumar.
Pediu ao pai dois livros para ler enquanto estava ali, mas não conseguiu lê-los. Um era O Pêndulo de Foucault, de Humberto Eco. Não por acaso o livro gravitava em torno de referências esotéricas, Kabbalah, alquimia e teorias conspiratórias. Na trama, sociedades secretas estão envolvidas em um suposto plano que governaria a humanidade. Tudo o que não seria recomendado para alguém enfrentando um quadro psicótico...
O pai não teve culpa. Foi um pedido do filho e ele atendeu. De qualquer forma O Pêndulo de Foucault não era uma leitura recomendável para um jovem naquele momento.
Mas falávamos do diagnóstico do que acontecera e, portanto, para o devido tratamento teria que ser preciso. E isto levou alguns anos. Vários médicos atenderam o jovem, mas nenhum, aparentemente, conseguia determinar. Assim, o tratamento se arrastava sem ter nenhum progresso.
Já havia sido rotulado: “enlouqueceu”!
Louco é uma palavra difícil de engolir, particularmente, por aqueles que têm algum transtorno mental.
A experiência da primeira internação não é nada boa para alguém que normalmente considera não ter problema algum. Mas, foram sucessivas internações, algumas até boas, outras nem tanto.
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