O Encontro com Lígia
O Encontro com Ligia
Os tipos de transtornos mentais são variados. E estão sempre sendo atualizados: os diagnósticos, a nomenclatura e possíveis formas de tratamentos.
A mente humana é complexa. Em verdade, pode ser a última esfera, ainda muito misteriosa, do conhecimento.
No meu caso específico levaram anos até que se chegasse a um diagnóstico certeiro e, portanto, o tipo de tratamento adequado e disponível que está sempre em evolução, principalmente no que diz respeito às medicações necessárias.
Não é interesse, desta pequena memória, descrever cada um deles. Nem teria eu esta capacidade. Isto pode ser visto e feito em outros lugares. A internet é farta em informações dos diversos tipos de distúrbios mentais, por exemplo. Mas, podemos nomear alguns: Esquizofrenia; Transtornos de Humor (vários tipos); Transtornos Psicóticos (vários tipos); Transtornos de Ansiedade (vários tipos); Transtornos de Personalidade (vários tipos); etc. Ou seja, a lista é grande. Alguns adquirem apelidos específicos catalogados ou não em um dos tipos citados anteriormente. É o caso de Depressão, por exemplo, que atinge milhões de pessoas pelo mundo.
Mas, pesquisar sozinho, como dizem, “é uma faca de dois gumes”. Pois alguns sintomas de transtornos mentais são muito parecidos. O auxílio, portanto, de um acompanhamento profissional se faz necessário. E, que tal profissional seja de extrema confiança. Só assim se estabelece uma empatia e um vínculo capaz de tornar efetivo o processo de superação, ou diminuição das dificuldades enfrentadas.
Algumas pessoas apresentam, em determinados momentos da vida ou situações específicas e esporádicas, ansiedade ou pânico, por exemplo. Mas, isto não é suficiente para definir um transtorno mental. É preciso toda uma anamnese para distinguir uma situação peculiar, um acontecimento ocasional de um transtorno mental, que é uma doença efetiva.
São ABSOLUTAMENTE REAIS, e destaco esta expressão porque para o transtornado que vive um surto, por exemplo, as coisas, os sentimentos, pensamentos, impressões que lhe ocorrem são assim mesmo: ABSOLUTAMENTE REAIS. Enquanto o transtornado estiver neste estado nenhum agente externo o convencerá do contrário.
O que é mais difícil de ser feito é, exatamente, convencer àqueles ou àquelas que estão em pleno surto de que aquilo que estão vivenciando é uma “fantasia”, digamos assim, ou uma “traição da mente”.
Enquanto o surto não passar aquilo é a realidade para a pessoa.
Quando referi, neste capítulo, ao “encontro com Lígia”, falo de Ligia Horta Mesquita – CRM-RJ 52.42337-4, minha médica há tantos anos. Ela conseguiu estabelecer este vínculo de confiança comigo. O trabalho dela foi muito importante para que eu retornasse a algumas atividades. Quando digo a ela que foi o trabalho dela que me proporcionou isto, ela normalmente diz: “Foi o NOSSO trabalho”! Entendi isto no sentido de que se o paciente não quiser colaborar o médico nada pode fazer.
O trabalho com Ligia foi exitoso, apesar de nos primórdios haver necessidade de internação. Aos poucos, pacientemente, fomos estabelecendo um vínculo, um acerto na medicação, de tal forma positiva que eu há muitos anos não tenho uma crise séria. Mas, é preciso manter atenção, pois esta doença não tem cura ainda. Não há vacina para ela.
Houve uma curiosidade, coincidência ou providência na relação com Ligia. Eu havia tentado muitas formas para dar fim ao meu sofrimento e fragilidade: alguns tradicionais, outros totalmente sem nexo com o meu problema.
No fim eu tentava fazer psicanálise com um profissional de Niterói chamado Frederico Abreu, que me fora indicado por meu amigo Roberto Kant de Lima. Era um desastre nossas sessões, pois a Psicanálise, penso eu, exige uma fala do analisando pela qual o analista irá trabalhar. E eu passava sessões inteiras sem produzir um som sequer. Deitava no divã e ficava paralisado, travado.
Frederico morreu, pouco tempo depois do início do meu tratamento com ele, vítima de um tumor no cérebro. Pouco antes de sua morte ele reuniu em sua casa os seus analisandos para uma despedida e confraternização. Até toquei piano naquele dia. Muito mal, mas executei uma pecinha que não me lembro qual foi.
Algum tempo depois, tendo fracassado com mais um psiquiatra, foi-me indicada a Ligia. Não vou dizer que foi uma identificação imediata, tipo “amor à primeira vista”. Eu estava cansado de médicos e tratamentos que não davam certo. Mas, por algum motivo, que não sei explicar muito bem, continuamos. E o vínculo de confiança foi se estabelecendo gradativamente.
Certa vez, numa das nossas consultas, eu comentei que havia tentado a Psicanálise e que meu último analista tinha sido o Frederico Abreu, que já havia falecido. E que eu nunca mais tentei.
Ligia me respondeu dizendo que o Frederico havia sido o seu analista. Isto nos aproximou ainda mais. Talvez tenha sido estabelecido um vínculo fraterno. Não sei. E como não é minha especialidade, realmente, não saberia responder adequadamente. Afinal, eu fiz Psicanálise por um curto espaço de tempo e nunca havia me preocupado com a teoria, apesar de neste mesmo período eu tenha participado da constituição de uma sociedade em Niterói chamada Stilo Freudiano. Mas, não tenho o menor domínio do assunto. Já ouvi, entretanto, em algum lugar alguém dizer que pessoas que fazem análise com o mesmo psicanalista são uma espécie de “irmãos”.
Ligia acertou no meu diagnóstico, ou, no mínimo o tratamento deu certo: Transtorno de Humor Bipolar (THB).
Ligia

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